Avançar para o conteúdo

Velhos hábitos

No discurso de tomada de posse, Carlos Moedas voltou a salientar que “as populações não podem ser tratadas como entes abstratos, ouvidos apenas de quatro em quatro anos” e que “é por isso que a primeira marca do nosso programa foi e é o envolvimento das pessoas no processo de decisão da cidade”. “Eu acredito que é preciso toda uma comunidade para gerir e imaginar uma cidade.“

A cerimónia de tomada de posse de Moedas e do seu executivo podia ter sido um momento de celebração aberto à comunidade – como, aliás, as tomadas de posse poderiam ser. Celebrações da Democracia e do poder local, e oportunidades para, de uma perspectiva humana, dar a conhecer à cidade os novos rostos da governação. A tomada de posse de Moedas podia ter sido, ainda, uma primeira oportunidade para mostrar a nova filosofia de fazer política com as pessoas.

Ao invés disso, a cerimónia acabou por ser fechada em si mesma e em velhos hábitos. Num recinto vedado, que fora instalado ao ar livre na Praça do Município, só entrava quem estivesse na lista de convidados: os 75 deputados e 17 vereadores eleitos para a formalização da sua tomada de posse, as equipas cessantes da Assembleia e da Câmara, jornalistas acreditados, Presidentes de outras autarquias (incluindo o alcaide de Madrid) e várias altas figuras partidárias, essencialmente do PSD e CDS. Outras pessoas, que também quisessem assistir à tomada de posse, ficavam da parte de fora, separadas por grades e por um cordão discreto de guardas-costas e de agentes da PSP. Apesar do apelo de Moedas nas redes sociais para tal, terá aparecido uma centena de pessoas, se nem tanto.

A separação entre políticos e população é uma barreira que se tornou habitual no nosso espaço democrático. A política parece que se fechou na sua própria bolha e que se normalizou a distância entre as suas figuras e o “povo”. A não ser em campanha eleitoral, os políticos não se misturam com as outras pessoas, mas querem que as pessoas se misturem com a política. No final da cerimónia, logo após o discurso de Moedas, carros oficiais alinharam-se à saída do recinto para, individualmente e em novas bolhas, levarem os políticos até ao conforto de suas casas.