mruiandre Mário, todavia, Rui, contudo, André

Humildade

A crítica é uma actividade necessária. Mas a crítica gratuita ao jornalismo é algo que, infelizmente com as redes sociais, parece ser cada vez mais frequente. Sendo esta uma actividade com um diálogo bastante intenso com a sociedade (e ainda bem), é preciso que esse escrutínio feito ao trabalho dos órgãos de comunicação social seja baseado em critérios sólidos e objectivos. Não foi o que Wuant fez.

Numa peça lançada na semana passada, a Renascença limitou-se a fazer jornalismo e a denunciar uma situação perigosa no YouTube: publicidade a sites ilegais de apostas por parte de alguns youtubers portugueses, como Wuant, nos seus vídeos. Tal constitui um crime, mas não é só isso que está em causa: falar de sites de apostas em vídeos que vão ser vistos por um número significativo de menores 18 anos é, na minha opinião, eticamente questionável e, na de advogados, uma atitude negligente.

A reportagem da Renascença não é boicote – é jornalismo do bom e, felizmente, não é o único elogio que se pode fazer à Renascença. No Shifter ainda há pouco tempo destacámos o seu trabalho em ciência de dados e ‘open source’; e muito recentemente no Twitter a “Calculadora Custo de Vida” tornou-se um pequeno e bom viral. A Renascença está fortíssima no digital; há que reconhecê-lo.

Como outros órgãos de comunicação social em Portugal, a Renascença tem bons profissionais que saberão mais sobre jornalismo que o Wuant, mas que não perceberá tanto quanto o Wuant de entretenimento digital. Informação e entretenimento não só são coisas bem diferentes uma da outra, como há que ter humildade suficiente para identificar aquilo em que se é bom (porque houve tempo, esforço e dinheiro investidos nisso), e para reconhecer que o outro saberá mais sobre outra coisa na qual colocou toda a sua energia. Como se costuma dizer: “cada macaco no seu galho”.

Informação e entretenimento coexistem na internet como sempre coexistiram na televisão, mas são dinâmicas complementares e não antagónicas. Posso não me identificar com o conteúdo de Wuant, mas reconheço-lhe valor, talento e mérito, tal como reconheço valor, talento e mérito a outros animadores com os quais também não me identifico mas que há anos fazem entretenimento na televisão, por exemplo.

Existe algum preconceito em relação aos youtubers; já o ouvi e muitas vezes parece-me que se deve a desconhecimento. Acho importante estarmos atentos à nova geração de entertainers (perdoem-se o estrangeirismo); acredito que todos podemos aprender algo com os outros, principalmente quando são alguém de contextos geracionais diferentes ou quando actuam num âmbito diferente que o nosso. Ainda há um ano o Shifter fez ‘like’ num vídeo do Wuant sobre o Artigo 13. O Wuant é seguido por mais de 3 milhões no YouTube, a CMTV é o canal mais visto do cabo e a Cristina Ferreira movimenta audiências como ninguém. São fenómenos e não podem ser desvalorizados.

A investigação da Renascença que “irritou” o Wuant acabou por fazer mexer o YouTube, que irresponsavelmente estava desatento a uma situação perigosa na comunidade portuguesa – o YouTube acabou por bloquear a publicidade a sites de apostas não só cá como também em Espanha. Os youtubers têm apenas de aceitar o cumprimento da lei e passar a ter mais cuidado daqui para adiante. O erro acontece e agora é preciso achar outras formas de monetização – percebo que doa mas sejamos francos: sites de apostas não poderiam ser nunca uma aposta segura.

Com grandes poderes chegam grandes responsabilidades, e isso é válido não só para grandes plataformas como o YouTube (que têm de estar atentos e proteger comunidades vulneráveis como as crianças e adolescentes) como para os criadores com milhões de seguidores (que têm de ter consciência das consequências que o que dizem e mostram podem ter para os públicos para quem falam).

mruiandre Mário, todavia, Rui, contudo, André

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