mruiandre Mário Rui André

Viver o espaço público

Não querendo correr o risco de estar a ser injusto para com Lisboa, sinto que é uma cidade onde se vive pouco o espaço público. Não sei se é uma cena cultural nossa e/ou se é resultado de ser uma cidade onde se anda muito de automóvel: ora se as pessoas saem de casa de manhã, entram no carro, chegam no trabalho, saem, voltam a entrar no carro e só param em casa, que oportunidade sobre para estarem na rua? Mais: se muitas dessas deslocações são feitas entre a cidade, onde trabalham, e a periferia, onde moram, o contacto com Lisboa não é mais do que utilitário.

Em Lisboa não vejo praças cheias de jovens skaters, ou espaços verdes a abarrotar de gente ao final do dia para descontrair depois do trabalho. Em vez disso, há trânsito, ruído e poluição. Não estou a dizer que não haja skates na Praça da Figueira, que as encostas do Parque Eduardo VII estejam vazias ou que, desde que foram instalados quiosques e aumentados os passeios, não se vejam pessoas ali na rotunda do Saldanha a beber uma ou duas cervejas à saída do escritório. O que digo é que isso não é a norma.

Estive em Barcelona e via as ruas cheias de pessoas; em Berlim também senti o mesmo. Jardins, praças, esplanadas… Tudo. Ficaram-me na memória como cidades vividas. Em Lisboa vou a caminhar por Benfica ao final do dia e encontro ruas ladeadas por carros, filas de carros a separar duas vias de uma mesma estrada, praças que são estacionamentos… Em Benfica pessoas e carros dormem esperando pelo dia seguinte, mais um dia de trabalho. Espaços verdes junto aos prédios vêem-se poucos ou mal amanhados, e praças que podiam estar bem aproveitadas… bem, não estão. Nas Olaias, outro exemplo, há alguns relvados e jardins mas estão rodeados por grandes avenidas, onde a velocidade dos automóveis não dá conforto para atravessar e o ruído que provocam não convidam ao descanso. Mais vale ir para casa.

Lisboa não foi sempre assim, se calhar. Pelo menos ao ver aquela série antiga da RTP sobre os bairros da capital nos anos 1989-1991 fiquei com a impressão de que se vivia mais a cidade que hoje.

mruiandre Mário Rui André

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