mruiandre Mário, todavia, Rui, contudo, André

Seca

Este não é um post sobre bicicleta, mas uso-a para ilustrar uma história.

Seca. Costumo pensar que vivendo numa grande cidade como Lisboa e nos seus arredores não nos apercebemos de alguns problemas que assolam o resto do país. A seca é um deles. Não é tão mediatizada como os grandes incêndios, não vende desespero na televisão, não chama à atenção dos afectos de Marcelo. Em 2017, Portugal sentiu uma seca duríssima de norte a sul, com particular gravidade no Alentejo. Faltou água para a agricultura, para a indústria e, mais importante, para beber. Barragens vazias, rios com menos caudal, populações desesperadas.

Entretanto, em Lisboa, os espaços verdes continuavam verdes e abrindo a torneira acontecia o resultado esperado. Seca? Nenhum lisboeta a sentiu. Poucos devem ter ouvido falar dela na comunicação social com o mesmo tom de gravidade das notícias sobre os incêndios. 2018 foi um ano mais brando. Depois de um Inverno assim-assim no que toca a chuva, Março acabou por salvar o país da condição de seca. Choveu naquele mês quatro vezes mais do que costuma chover. Foi bom. O Verão de 2018 foi tranquilo (tirando aqueles dias de calor excessivo), mas os sinais de alerta estão aí de novo.

Este Fevereiro de 2019 foi um mês demasiado quente e seco para o que é normal, diz o IPMA. 57,1% do território nacional está em seca moderada, 4,8% em seca severa. É preocupante. Olhando para um espectro temporal mais alargado, desde Outubro do ano passado até 31 de Janeiro deste ano, choveu 77% menos do que seria expectável chover. Março, que poderia salvar novamente o país, continuou com muito pouca chuva. Não sei como vai ser daqui até ao Verão nem como será o Verão, mas esta situação de seca deixa-me preocupado e com aquele sentimento de “não há nada que possa fazer”.

Preocupa-me a consciencialização social para este problema. Os dias soalheiros sabem bem, nem que seja para podermos fazer as nossas rotinas casa-trabalho sem molhas – então para mim, que me desloco de bicicleta, são óptimos. Mas isto de a bicicleta ser o meu modo de transporte preferencial em Lisboa acaba por me dar uma noção diferente da meteorologia que vai fazendo na cidade. Dias de sol significam que posso levá-la à vontade; dias de chuva implicam alterar a rotina e quase sempre deixá-la em casa. Por causa desta gestão diária, acabo por tomar consciência do que chove e não chove – se calhar, se me deslocasse de outra forma, não teria essa percepção.

Portanto, quando há um Inverno em que a bicicleta sai praticamente todos os dias da garagem, sei logo que é mau sinal. E este Inverno tem sido um desses Invernos. Para a seca acabar seria preciso chover muito agora. Mesmo muito. Ou seja, muitos dias sem pegar na bicla.

“O tempo é o paradoxo chave da nossa época. O tempo que é bom é muitas vezes o tempo que é errado. O bom está a acontecer no imediato e no indivíduo, e o errado está a acontecer em todo o sistema.”

Roni Horn (tradução livre)
mruiandre Mário, todavia, Rui, contudo, André

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