mruiandre Mário Rui André

Jornalismo digital: o que correu mal

Esta semana fizeram-me uma daquelas perguntas que costumo ouvir com frequência: qual o futuro do jornalismo? Entre amigos, conversámos um pouco sobre o Shifter e por que é que me mantenho optimista apesar de todas as dificuldades com que nos vamos cruzando; e falámos também sobre a Vox, o Quartz, o The Guardian, o BuzzFeed News… sobre todos os media que lá fora parecem dar sinais de que o jornalismo – em especial o digital – tem um futuro risonho.

Coincidentemente esta foi também a semana em que as notícias sobre despedimentos no BuzzFeed, na VICE e no HuffPost. Feitas as contas, 2100 pessoas ligadas a órgãos de comunicação social puramente digitais ficaram sem emprego. Sobre esses despedimentos, cruzei-me com 4 bons artigos:

  1. Digital Media: What Went Wrong – por Edmund Lee @ The New York Times
  2. 2009: The internet is killing (print) journalism. 2019: The internet is killing (internet) journalism – por Jeff Israely @ NiemanLab
  3. Digital Media: What Really Went Wrong in 2018 – por Rafat Ali @ Medium
  4. The BuzzFeed Lesson – por Ben Thompson @ Stratechery

E estas foram as principais ideias que retirei dessas leituras:

  • os artigos centram-se no BuzzFeed, mas as lições/análises podem ser estendidas a publicações nativas digitais (Vice, HuffPost…);
  • os órgãos de comunicação social que nasceram na internet (nativos digitais) têm sentido mais dificuldades que os órgãos ditos tradicionais (The Washington Post, The Atlantic, New Yorker…), que se adaptaram à internet;
  • antes os leitores eram mais ou menos constantes nos seus hábitos, pelo que os responsáveis por empresas de media não tinham de rever os seus modelos de negócio ano após ano. Hoje os consumidores são inconstantes e algo que “funciona” agora pode rapidamente cair em desuso;
  • existe uma sensação de que é muito fácil criar um negócio de media, dada a disponibilidade de plataformas e de acesso a capital de risco;
  • gestores de empresas de media são aliciados por investimentos de capital de risco. Todavia, estes investidores estabelecem horizontes de apenas 3-7 anos, esperam grandes retornos num curso espaço de tempo. É a falácia do escalar o mais possível e o mais rápido possível. Empresas de media verdadeiramente independentes são para durar para sempre;
  • apesar de se poder ter mais constrangimentos, o ter menos pode ser melhor – pode permitir mais profundidade, andar mais devagar, ser mais deliberado, ser mais humano, haver menos pânico;
  • o BuzzFeed desvalorizou o seu conteúdo ao ter confiado na “bondade” dos gigantes do meio digital, como o Facebook, para distribuir os seus artigos;
  • por outro lado, o BuzzFeed e outras empresas de media como a Vox Media e a Refinery29 aceitaram os dólares do Facebook e investiram em conteúdos de vídeo na rede social, que queria “atacar” o YouTube;
  • mas a única forma de construir um negócio próspero num espaço dominado por um agregador como o Facebook é contorná-lo, não é trabalhar com ele;
  • não será o rompimento do duopólio do mercado publicitário digital detido pelo Facebook e pela Google que irá resolverá a questão dos media de como ganhar dinheiro, enquanto as suas notícias estiverem disponíveis instantaneamente em qualquer lugar e, teoricamente, a custo zero;
  • criar um negócio de media passa por escolher um sector (por exemplo, viagens), cobrir esse sector e ganhar uma audiência. Depois ou se vende esse audiência (através de publicidade) ou se vende à audiência (através de subscrições e outros serviços pagos);
  • órgãos de comunicação social focados num tópicos específico ou em relações B2B (ou seja, direccionados para empresas em vez de consumidores) são modelo de negócio seguros e directos;
  • num media não especializado (ou seja, generalista), a sua audiência e os serviços que pode oferecer são mais difusos;
  • o The New York Times começou a ter paywall em 2011 – no final de 2018, o jornal somava mais do dobro das receitas digitais do BuzzFeed. E o sucesso das subscrições no Wall Street Journal permitiram-lhe duplicar os jornalistas no ano passado para 26;
  • a Vox Media, dona do The Verge, Eater…, tornou-se lucrativa no final do ano passado. O modelo de negócio da Vox Media inclui desde uma série para o Netflix – o Explained –, a conferências e podcasts, sem esquecer o licenciamento do seus sistema de gestão de conteúdos, o Chorus;
  • o The Information e o Axios perceberam que existe uma procura enorme e crescente por conteúdo de qualidade. O primeiro apostou no antigo modelo de negócio das subscrições. E o segundo focou-se em newsletters, um meio que não é afectado pelo Facebook. O Axios, que é dos mesmos fundadores do Politico, espera tornar-se lucrativo este ano – em 2018 gerou mais de 24 milhões em receitas no ano passado, enquanto recupera de perdas de 56 mil dólares;
  • o BuzzFeed, que sempre se manteve anti-paywall, também pode atingir marcos financeiros este ano, mas não pela inovação digital, mas por técnicas antigas que já foram testadas e que resultam, como despedimentos).
mruiandre Mário Rui André

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