mruiandre Mário Rui André

Para viver bem ligado é preciso estar desligado

Um smartphone no bolso e uma ligação à internet abrem-nos um mundo maravilhoso de novas possibilidades. Podemos trocar mensagens de áudio ou partilhar fotos de forma instantânea com um amigo a quilómetros de distância. Se temos dúvidas de como chegar a um determinado sítio, é só recorrer à app de mapas. Conseguimos ouvir música em streaming ou ver aquele vídeo que surgiu numa conversa de bar. E, além de tudo isso, há determinados serviços a que só podemos aceder com um smartphone, como chamar um uber ou apanhar uma bicicleta partilhada na rua.

Esses são exemplos mais utilitários. O smartphone tem vindo a ganhar, ao longo dos anos, capacidades gráficas e de processamento que têm tornado este tipo de equipamento cada vez mais potente numa panóplia de áreas – do gaming à fotografia. Com ecrãs maiores, baterias reforçadas e algoritmos de inteligência artificial cada vez mais desenvolvidos, o smartphone chega a ser um autêntico computador no bolso, capaz de nos proporcionar uma experiência de realidade aumentada, tirar fotografias com a qualidade de uma DSLR ou jogar um título avançado como o Fortnite.

Não há dúvidas de que um smartphone é uma peça de tecnologia integrante nas nossas vidas. Mas é também um veículo de distracções. As apps estão desenhadas para nos prenderem o máximo de tempo possível, através de notificações constantes e de outras mecânicas que mexem com o nosso cérebro, criando a sensação de mal estar quando não estamos conectados. Sem darmos por isso, estamos viciados e, se achamos que não, basta fazer o teste desligando tudo durante uns dias ou uma semana. Desligar é bom, mas não precisamos de tomar “medidas radicais”.

Com o advento da tecnologia, surgem os excessos no seu uso que eclipsam o potencial para nos tornarmos numa sociedade mais conectada, eficiente e, por isso, sustentável. Quantos de nós pensam que aceder a uma app faz gastar energia num servidor do outro lado do mundo? Ou faz com que o nosso corpo liberte químicos idênticos aos que liberta quando jogamos num casino? É por isso que, para tirar melhor partido do smartphone, é preciso percebermos aquilo que queremos dele.

O nosso tempo livre é limitado, por isso, há que potenciá-lo e aproveitar cada segundo. Podemos controlar o uso que fazemos do telemóvel, desinstalando as apps que nos roubam tempo, mantendo os dados móveis desligados ou mexendo nas definições do “modo não incomodar”. É importante percebermos que cada notificação gera em nós um estímulo e que se outrora nos permitimos a contemplar uma paisagem, hoje olhamos múltiplas vezes por dia para o ecrã do smartphone. A boa notícia é que podemos personalizar o telemóvel ao ponto de nos conseguirmos afastar dele, tornando-o uma ferramenta complementar e não um vício. Criando mecanismos de resposta automática, definindo limites de utilização e personalizando as notificações até ao mais ínfimo detalhe são estes alguns dos trunfos deste sistema operativo.

(editorial escrito para o catálogo da FNAC, disponível também aqui)

mruiandre Mário Rui André

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