mruiandre Mário Rui André

Sobre a Lisbon Mobi Summit

Juntam-se três grandes corporações associadas ao sector automóvel e aos combustíveis fósseis – EDP, Volkswagen e Brisa –, mais outros agentes económicos e alguns políticos, e faz-se uma conferência sobre o futuro da mobilidade urbana. Na sexta-feira, ficou provado que o pré-aquecimento da Lisbon Mobi Summit foi um evento das empresas e dos políticos para eles mesmos. Os transportes públicos, absolutamente fulcrais na mobilidade das cidades, mal tiveram assento neste debate-fingido. E quando foi a vez dos jovens e das start-ups falarem, a sala estava vazia.

Mobilidade eléctrica, inteligente, partilhada e sustentável

O pré-aquecimento para a Lisbon Mobi Summit, que decorreu na sexta-feira na sede da EDP, pode não ter sido o painel mais diversificado para uma conferência sobre mobilidade (afinal de contas, juntou empresas como a EDP, a Volkswagen e a Brisa), mas deu para extrair algumas pistas sobre a posição destas grandes corporações, tradicionalmente associadas ao sector automóvel e aos combustíveis fósseis, quanto ao futuro da mobilidade – uma mobilidade eléctrica, inteligente, partilhada e mais sustentável.

Durante cerca de uma hora, EDP, Volkswagen e Brisa falaram como o novo paradigma de mobilidade, focado na partilha e não na posse, e a (drástica) diminuição do número de carros a circular nas cidades representam novas oportunidades de negócio. Para a EDP, a mobilidade eléctrica permite-lhe conquistar clientes fora de casa. Para a Volkswagen, é certo que existirão menos carros, mas, na lógica de partilha, esses carros farão mais quilómetros e terão de ser reparados ou substituídos com maior frequência. Já a Brisa tem vindo a explorar novas áreas de negócio para além das auto-estradas, através da marca Via Verde, como sistemas que permitem pagar o estacionamento ou gerir a bilhética por nós em transportes públicos.

Num painel exclusivamente empresarial – onde faltaram representantes de outras formas de mobilidade, nomeadamente transportes públicos –, destaque, ainda assim para a participação da Efacec, empresa do Norte que é reconhecida pelos carregadores eléctricos que produz; e da CEiiA, cujo representante falou num conceito interessante: quantificar as emissões poupadas/não emitidas pelo utilizador por, por exemplo, ter optado por um veículo eléctrico – no fundo, medir a sustentabilidade. Já a porta-voz da Cisco mencionou uma experiência com pontos wi-fi nos autocarros públicos de Braga, que não só dão um motivo extra às pessoas para andar neste transporte, como permitem transformá-lo em pontos de informação sobre a cidade – temperatura, humidade, ruído, poluição, etc.

Chegar o mais rápido ao destino com o menor custo, quer para o utilizador, como para os operadores de transporte e para o ambiente; integrar sistemas e diferentes formas de mobilidade; e gerir dados resultantes de todas as deslocações das pessoas (uma vez que passará a estar tudo digitalizado e conectado) para traçar tendências e perfis de comportamento, foram outras ideias que marcaram este debate.

Pacotes de mobilidade e o problema da Linha de Cascais

Seguiu-se uma intervenção do Secretário de Estado do Ambiente, José Mendes, que apresentou uma visão de mobilidade estruturada em pacotes como os das operadoras de telecomunicações. Ou seja, existem diferentes pacotes de mobilidade disponíveis, consoante a carteira e as necessidade de cada pessoas, e escolhemos aquele que mais se ajusta a nós – pode incluir, por exemplo, X viagens de metro ou autocarro, Y minutos de bicicleta partilhada e Z quilómetros em auto-estrada para o nosso veículo privado.

Mantendo-se o ambiente político, o painel seguinte incluiu os Presidentes de Câmara das autarquias de Lisboa, Cascais e Torres Vedras. A Linha de Cascais, cuja degradação pede há muito uma intervenção da CP/Governo, dominou parte da discussão. Fernando Medina, que lidera a Câmara Municipal de Lisboa, apresentou a sua ideia para renovar aquela Linha, ligando-a à Linha de Sintra, através de uma bifurcação em Alcântara-Terra: alguns comboios seguiam para o Cais do Sodré, outros para Campolide, o que permitiria uma melhor redistribuição das pessoas, evitando acumulações no Cais. A proposta pareceu ter o apoio de Carlos Carreiras, da Câmara Municipal de Cascais. Os dois presidentes falaram ainda na necessidade de introduzir transporte público na A5, cuja envolvente tornou-se uma importante área de residências e de empresas. Como? Por exemplo, com faixas BUS.

O pré-aquecimento da Lisbon Mobi Summit – a conferência “a sério” só vai acontecer lá para Setembro – terminou quase sem audiência na sala. Os jovens e as start-ups falaram para poucas dezenas de pessoas, mostrando, talvez, o pouco interesse dos empresários e políticos na visão mais fresca e descomprometida sobre mobilidade que estes últimos painéis prometiam. Os jovens falaram de bicicletas como meio de transporte, da lentidão do metro e dos autocarros em Lisboa, do facto de evitarem o Uber pelos escândalos e artimanhas desta empresa, de como a tecnologia pode melhorar os transportes públicos, de como ter carta de condução pode dar jeito para usar carros partilhados ou conduzir o veículo dos pais mas não para ter carro próprio, e de soluções como o hyperloop.

O protesto da Climáximo

Durante a manhã, à porta da sede da EDP juntou-se um pequeno protesto.

A Climáximo, um movimento civil preocupado com o curso das alterações climáticas, promoveu uma pequena manifestação à frente da sede da EDP, onde decorreu este evento. Denunciam que a EDP é “a maior emissora de gases com efeito de estufa em Portugal, sendo proprietária da central termoelétrica a carvão de Sines, a maior poluidora do país”; lembram que a Volkswagen é “um dos maiores construtores de automóveis do mundo, e há dois anos foi apanhado no maior esquema de burla de emissões de gases com efeito de estufa conhecido até à data”; e não esquecem que a Brisa é “proprietária de mais de 1600 km de autoestradas privadas, onde passam um acumulado de 28 milhões de veículos a gasolina e a diesel por ano”. Lá foram, criticaram a “ausência de qualquer actor dos sector dos transportes públicos, colectivos ou ferroviários”.

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Mário Rui André

Co-Fundador e Director Operacional do Shifter