mruiandre Mário Rui André

O veredicto final sobre o Web Summit

Foi uma semana agitada por causa do Web Summit. O evento arrastou 60 mil pessoas até ao Parque das Nações e foi falado, nos últimos dias, em tudo o que é sítio. Muito hype, algumas polémicas. Mas, afinal, o que é que deu para retirar da maior feira de tecnologia em Portugal?

Pouco. O Web Summit não é local de lançamentos de novos produtos tecnológicos, como um novo smartphone ou um novo software. É essencialmente um evento de networking para start-ups e uma oportunidade também para estas fazerem contactos com investidores. Assim, o recinto – que é composto pelo Altice Arena (onde está o palco principal) e pela FIL (que tem os palcos secundários, a exposição de start-ups e os stands dos patrocinadores/empresas) – tem mais ou menos este aspecto:

Se não formos start-up ou investidor, não há muito para fazer no Web Summit, além de assistir a conferências ou fazer contactos (nisto a app do evento pode ser uma grande ajuda). Ainda assim, às vezes encontram-se cenas como esta: é um trabalho de Leonel Moura, artista português que gosta de criar com inteligência artificial e que, no Web Summit, colocou quatro robôs a desenhar uma tela em branco.

No Web Summit estiveram 2600 jornalistas, de acordo com números da organização. A sala de imprensa, onde os meios portugueses se misturavam com os internacionais, tinha este aspecto:

No que toca a conferências, muito espalhafato, muita superficialidade e alguma política. Parecem mais introduções aos assuntos que discussões sérias sobre os mesmos – quem já sabe alguma coisa, não aprende ali nada de especial. A Waymo, a empresa que nasceu dentro da Google, anunciou que os seus carros autónomos vão estar disponíveis ao público num pequeno teste lá nos Estados Unidos. A Uber veio falar de veículos voadores (Los Angeles, 2020). E o Reddit mostrou como será o seu maior redesign de sempre. Foi também anunciada a maior plantação de cannabis em Portugal e, por falar em erva, descobrimos (através do Future Behind) um botão que traz esta planta a casa. E vimos a Sophia, a robô inteligente que não é assim tão inteligente mas que na Arábia Saudita tem mais direitos que uma mulher.

As últimas eleições norte-americanas foram tema central de algumas das intervenções. Pudemos ver o director digital da campanha de Trump, Brad Parscale, no dia em que faz 1 ano desde a eleição do Presidente norte-americano, e ainda Alexander Nix, o CEO da Cambridge Analytica, a empresa de análise de dados que esteve por detrás da campanha de Trump e que pode desbloquear a questão da influência russa.

O Web Summit foi também um evento político e uma oportunidade para os nossos líderes fazerem algum barulho. António Guterres, Secretário-Geral da ONU, António Costa, Primeiro-Ministro, e Fernando Medina, Presidente da Câmara Municipal de Lisboa estiveram na cerimónia de abertura e também noutros eventos mais restritos na feira. Fizeram os três discursos para os empreendedores presentes no evento; destaco o de Medina:

“Lisboa era a capital do mundo há cinco séculos, daqui partiram rotas para descobrir novos mundos, novas pessoas, novas ideias. De Lisboa partiu uma grande aventura que conectou a humanidade. O que estamos a fazer aqui e agora é a renovar essa aventura que partiu de Lisboa. Há 500 anos os navegadores cruzaram os mares. Hoje são vocês, os engenheiros, os empreendedores, os criadores, os inovadores, as startups, todas as empresas.”

No encerramento, Marcelo Rebelo de Sousa, o Presidente, e Al Gore, o ex-Vice-Presidente dos Estados Unidos numa oratória de defesa do Planeta Terra que encheu o Altice Arena, criou uma euforia de palmas e fez levantar muitos telemóveis. Outros “cabeças-de-cartaz” do Web Summit: a super-modelo Sara Sampaio, o físico-estrela Stephen Hawking, youtubers famosos, o Dr. Oz e outros. No fundo, a crítica de que o Web Summit está mais generalista que ouvi num dos corredores até pode fazer sentido (mas não sei bem como era antes).

Talvez o melhor do Web Summit foi o que aconteceu em Lisboa por causa do Web Summit. Falo dos muitos eventos paralelos que fizeram a capital explodir na semana passada – todos eles gratuitos. Um deles – a bea.to unconference, organizada pela iniciativa Startup Portugal – contou com um debate bem interessante sobre o futuro da mobilidade na cidade – um futuro desenhado, em parte, por sistemas partilhados como as scooters da eCooltra ou as bicicletas da Gira/EMEL. Uma conversa com mais profundidade que as do Web Summit, diga-se.

Também no Beato – ou melhor no Hub Criativo do Beato – decorreu uma festa organizada pela Startup Lisboa e pela Câmara Municipal, uma oportunidade para conhecer melhor o espaço que no futuro (já em 2018) acolherá um dos maiores centros de inovação da Europa. Pelo Beato houve também uma exposição com alguns artistas emergentes, incluindo uma crítica ao Web Summit (a primeira foto desta galeria é a minha preferida).

Uma nota final que isto já vai longo: a Câmara Municipal de Lisboa esteve representada no Web Summit através do Made Of Lisboa, a marca que pretende representar o ecossistema empreendedor da capital. No site do Made Of Lisboa está disponível um directório dos intervenientes desse ecossistema, sejam eles pessoas, start-ups, espaços ou eventos. O Made Of Lisboa é parceiro do Shifter e em breve irão ouvir falar mais dele no sítio do costume.

Por falar em Shifter, temos um artigo extenso de análise ao Web Summit, escrito pelo nosso director editorial, João Ribeiro. A ilustração (que podem ver em baixo) foi cedida por Pedro Vieira – obrigado!. É um texto longo mas de leitura mais que recomendada. Podem também ver esta foto-reportagem em analógica (autoria do João também).

Por falar em análise, o Shifter também foi ao melhor telejornal português – o Inferno, no Canal Q – a falar sobre o Web Summit. Se não apanharam na televisão, podem agora sintonizar no YouTube.

E o Web Summit foi isto.

mruiandre Mário Rui André